Após esses seis anos e 14 quilos a mais, eu passei por outras modificações corporais importantes e algum amadurecimento que modificaram minha visão sobre a busca do corpo magro e sobre os meios de chegar ao equilíbrio entre corpo e mente. Em 2013 atravessei uma ponte sem volta que é a artrodese lombar. Uma cirurgia radical onde três vértebras da minha coluna foram fixadas com uma placa e seis parafusos de titânio. Foi uma cirurgia de quase 12 horas, onde tive uma instabilidade clínica e fiquei no limiar da vida e da morte. Foi uma recuperação difícil que enfrentei com a ajuda incansável da minha mãe (mãe te amo) e demais familiares. Além disso, contei com o suporte profissional de médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, acupunturistas e massagistas que foi essencial. Porém nada disso seria suficiente se não fosse a minha vontade de cura. Senti a dor e a limitação com humildade e paciência, reaprendendo a andar, sentar, movimentar, relacionar, valorizar e minimalizar problemas. Esse papo de corpo perfeito ficou superficial. Meu lado esquerdo não conseguiu ficar com a mesma força do lado direito. Então minha barriga é maior do lado esquerdo! Como a vértebra que antes se movia foi fixada, a musculatura entorno da prótese simplesmente desaparece. Então eu acumulo gordura ali!
Meu corpo é vivo, ele é um milagre. Eu consigo trabalhar com eficiência dentro de um hospital público de emergência por 12 horas ininterruptas de plantão. Eu consigo encostar o pé na bunda e a mão no chão em pé! Eu tirei nota 10 no meu projeto de intervenção da pós que fiz na FIOCRUZ. Eu caminho, ando no elíptico, faço pilates (parei), puxo ferro na academia, faço sexo, amarro o meu tênis, limpo a minha casa sozinha (demoro dois dias...), faço compras para o namorado carregar! Minha maior frustração é não poder mais saltar de paraquedas nem esquiar ou fazer outros esportes radicais.
Fazer 40 anos foi outra experiencia renovadora. Pude compreender que o padrão de beleza nada mais é que uma prisão onde inicialmente mulheres e agora todos os gêneros são oprimidos e levados a atitudes negativas e destrutivas, prejudiciais a saúde individual e coletiva. Que ser belo é tão relativo quanto ser feio. Que a casca sem o ovo dentro fica vazia. A perseguição pelo corpo perfeito, magro, musculoso, esvazia as pessoas de outros conteúdos. São tantas horas preocupadas com alimentação, cabelos, unhas, roupas, maquiagem, exercícios físicos, cosméticos, procedimentos estéticos, etc.
De forma alguma acredito que devemos negligenciar a vaidade, os cuidados corporais, com a alimentação e saúde. Mas eu também preciso de tempo para me dedicar ao aperfeiçoamento profissional, estudo, lazer, as minhas relações pessoais, assistir filmes e séries que eu gosto, curtir minha preguiça, minhas gatas, minha casa, minha família. Comer pastel a noite com a família em volta da mesa e não achar isso errado. Encher a boca d'água degustando uma bela torta de chocolate com a amiga e sair feliz, não sentindo culpa.
Eu definitivamente entendi que quanto mais eu busquei o autocontrole mais eu encontrei a compulsão. Valores que as revistas e blogueiras de plantão tanto valorizam como qualidades são na realidade a raiz de doenças comportamentais, do adoecimento psíquico das pessoas, que levam a distúrbios alimentares graves, depressão, ideação suicida, isolamento social, agorafobia, dentre outras patologias. O pior de tudo é que todas essas doenças ficam escondidas atrás de comportamentos socialmente valorizados que recebem reforço positivo das pessoas nas redes sociais, escolas, trabalho e ambientes sociais. É exemplo de disciplina a ser seguido a modelo que mantém um corpo extremamente magro fazendo jejum intermitente, comendo pouquíssimos alimentos, escolhidos de acordo com seu grupo nutricional e calórico. Gente, isso é anorexia, ortorexia, distorção corporal. Em algumas pessoas, pode levar a hospitalização, a degeneração de órgãos vitais, a morte. Mas o povo aplaude e tenta fazer o mesmo, até conseguir ou até desenvolver outros transtornos, como a bulimia, a compulsão alimentar, a depressão.
Aprendi que essa coisa de oito ou oitenta não é bom pra mim nem para ninguém que eu conheço. Que o equilíbrio entre o gordo e o magro é mais saudável. Que se eu comer um bolo não preciso me odiar, mas que se eu comer iogurte natural com chia não preciso implicar com o meu coleguinha que está comendo pão doce do meu lado. Alimento é cultura, é convivência, é emoção, é sabor, é funcional, é saúde, é remédio, é química e alquimia. Alimento é felicidade, é encontro, é festa. Alimento é energia, é força, é uma escolha individual. Cozinhar é um ato de amor. Preciso cozinhar mais em casa, consumir mais alimentos in natura. Mas não preciso de dieta, não preciso restringir grupos alimentares nem quantidade de alimentos. Para tudo na vida é preciso sapiência, as escolhas dos alimentos é uma delas.
Atualmente fui ao endocrinologista com uma suspeita de hipotireoidismo. Porém, mesmo apesar do meu peso, meus exames estão todos dentro dos parâmetros atuais de saúde. Mas será preciso diminuir o meu peso devido a minha coluna, não posso sobrecarregá-la senão diminuo o seu tempo de vida útil! Já deixei um dos meus dois empregos desde que fiz a cirurgia, tudo meu hoje é mais devagar, "porque já tive pressa". Após conversar com ele sobre meu transtorno atual que é a compulsão alimentar e dizer que não posso fazer dieta restritiva, ele foi coerente e determinou uma meta de perda de peso plausível. Não serei magra como era no inicio do blog, mas estarei com um peso saudável, tendo em vista que estou ganhando massa muscular.
Estou voltando a escrever para criar nova motivação para minha mudança de hábitos. Estou com muito receio de ir a uma nutricionista aqui na minha cidade, pois não consegui nenhuma que trabalha na linha comportamental. Não vou mesmo sair de um consultório com uma dieta no papel, porque preciso da minha autonomia na escolha dos alimentos que vou ingerir. Eu sou dona da minhas escolhas. Então essa parte da mudança eu ainda estou refletindo para tomar uma decisão, cuja saída já está sinalizada, mas será matéria para outra postagem.
Sou Kátia Lopes Quirino, 42 anos, solteira, gateira, assistente social, funcionária pública. Atualmente trabalho como profissional de saúde dentro de um hospital. Uso jaleco branco e me sinto responsável pela minha saúde e pela saúde dos usuários que eu assisto. Saúde no seu sentido amplo, com as determinações sociais, culturais, econômicas e regionais que a definem. Não posso mais me esconder por trás de comportamentos doentios em busca de um ideal estético, porque eu sou aquilo que faço. Tenho responsabilidade individual e com a coletividade. Por isso compartilho minha experiência e conhecimento na área de saúde. Espero encontrar apoio e apoiar quem procura exemplo e informação. Não tenho conhecimento técnico na área de nutrição, mas tenho leitura crítica da sociedade e vontade de ficar bem comigo mesma definitivamente.
Desculpem o textão, estou pensando em fazer alguns vídeos, mas a vontade de escrever bateu forte!
Apresentação de dança do ventre (2010)
Atualmente no estúdio onde eu treino musculação (2017)
De jaleco branco com laço preto em luto pelo SUS (2017)
Com minha gata Frida (2017)
Meu shape na dança do ventre (2010)





